sábado, 18 de agosto de 2012

Manifesto em favor do preconceito


Ao ler o título do post, a maioria deve ter pensado: - Vixe, endoidou de vez!
Não, não virei skinhead, extremista de direita, facista, neonazista, etc.Vim defender o preconceito, que vem sofrendo muito preconceito em nossa sociedade! Ou melhor, sofrendo discriminação.

O preconceito não é uma coisa ruim. É uma arma da evolução. As espécies ou indivíduos livres de preconceito não estão entre nós, foram descartados pela seleção natural.

Imagine se ao avistarmos uma cobra, ao invés de a pré-julgarmos como sendo perigosa, fôssemos passar a mão nela para ver se ela morde, se é venenosa!

Mentiroso qualquer um que diga: - Eu não tenho preconceito.
Nosso sistema nervoso funciona com preconceito. É através do preconceito que começamos a compreender coisas novas. Através do conhecimento prévio que temos do mundo que começamos a pré-julgar o novo e a compreende-lo.

O preconceito é uma primeira triagem do sistema nervoso àquilo que se nos apresenta. É com ele que classificamos assuntos, pessoas, fatos... Com quais deles devemos nos preocupar, nos ater, qual vale a pena uma abordagem mais aprofundada. Porém, aquele que se limita ao pré-concebido não evolui, não identifica o novo, não o conhece melhor.

Esse pequeno manifesto é só pra declarar como é chato esse papo politicamente correto de “Não ao preconceito”.

Sim, ao preconceito!! Não à discriminação de povos, classes sociais, pessoas com orientação sexual diferente...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Saúde em movimento



Estou numa nova empreitada, a RUN&CARE - Saúde me movimento. Esta é uma consultoria em movimento esportivo que visa a prevenir e tratar lesões esportivas através da avaliação e correção do movimento, de forma a diminuir pontos de sobrecarga no aparelho locolotor.

Dificilmente, terei tempo para me dedicar a escrever textos para o "Além da Ciência". Àqueles que gostaram dos meus textos, aos que praticam ou se interessam por esportes e aos puramente curiosos, fica o convite para conhecer a R&C no site www.runandcare.com.br .
Como não poderia deixar de ser, lá você encontrará o R&C.blog, com textos informativos relacionados à saúde em movimento esportivo.

Vale a pena conferir!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Mais doenças estranhas

Uma paciente nossa chegou ao ambulatório com a cara abatida.
- não estou bem!
- O que houve?
- É que tive uma crise de analgesia!!!!
Difícil foi a aluna explicar que não foi uma crise de analgesia. O médico tinha solicitado que fizéssemos analgesia.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Morte digna


Tenho participado de reuniões de cuidados paliativos na Geriatria do HC e isso veio reforçar minha opinião de que tem hora que é a hora de morrer. Isto é totalmente natural e qualquer esforço em contrário irá provocar sofrimento apenas.

Há tempos venho pensando em escrever mais sobre isso (alguns posts já trazem um pouco esta mensagem), mas não tinha um caso específico pra contar. Até que assisti ao filme "Marley e eu".

Como bom "do contra" que sou, tenho certa aversão aos best-sellers. O brasileiro é um povo que lê pouco, vai pouco a peças e espetáculos e consome enlatados, normalmente americanos, tornando-os best-sellers no Brasil enquanto muita cultura nacional de qualidade não tem público.
Mas também não sou radical e, eventualmente, tenho que dar o braço a torcer de que o produto tem qualidade, mesmo sendo best-seller!
Enfim, toda essa ladainha é pra dizer que não li o livro, mas após recomendação de várias pessoas assisti ao filme. Emocionante como uma história de companheirismo entre homens e cachorros, que qualquer um que já teve um animalzinho de estimação conhece e se reconhece.

Mas o que me chamou a atenção é que o cachorro teve uma morte digníssima. Das mais dignas que já vi. Em tantos anos trabalhando em hospitais, acho que nunca vi um ser humano ter morte tão linda.

O fato de não aceitarmos nossa finitude aliado à mentalidade corrente na área da saúde de que a morte é uma derrota leva a família e a equipe médica a cometerem atos de atrocidade com aqueles que estão próximos ao sagrado momento da morte. Ela é inevitável, cada um vai ter a sua, e que Deus permita, seja a mais tranquila possível! Todos pensam isso para si. "Gostaria de morrer dormindo na minha casa" é pensamento dos mais comuns. Mas quando alguém próximo se encontra perto deste momento, nosso pensamento, talvez guiado pela culpa ou medo, nos leva a cometer atos que impedem que este momento seja realmente tranquilo e sagrado.

No filme, Marley morreu cercado pelos seus, houve tempo para todos se despedirem dele, morreu no hospital veterinário sem sofrimento e ao lado de seu dono/companheiro. Houve até uma facilitação para a morte, uma vez que não havia mais esperança de vida (Eutanásia?).

Aceitamos isso para um cachorro que é parte da família, achamos lindo e choramos com o filme ou o livro. Mas, e quando o morrente é ser humano e próximo a nós?

Nestas horas, o ideal da medicina que deveria ser aliviar o sofrimento, algumas vezes pode se inverter. Já vi acontecer muito, por incapacidade da equipe de ver a morte como o processo natural neste caso ou da família, achando que está fazendo ou deve fazer tudo o que for possível para a pessoa continuar viva.

Mas que vida é essa? Já pararam pra pensar? Já acompanharam alguém numa situação destas?
Verdadeiras torturas são feitas com a maior boa-vontade e com as melhores intenções, mas não deixam de ser torturas.

Imagine uma situação em que vc está amarrado a uma cama, com um tubo no nariz que vai até seu estômago, seus dedos são furados algumas vezes por dia. Outras vezes, furam sua barriga, além de braços e pernas, atrás de suas veias. Durante a noite não dá pra dormir direito, porque tem mais gente no quarto fazendo barulho, várias vezes na noite alguém vem te acordar por algum motivo. Outras vezes resolvem passar um tubinho pela sua uretra também.

O que lhe parece? Cenas de interrogatórios da Santa inquisição? Torturas nos porões do DOPS? Reféns presos pela turma do Sadan Hussein?

Não! Isto acontece em nossos hospitais. Por exemplo, um paciente que não tem mais nenhuma chance de tratamento, que não tem fome e não vai ter nenhum benefício com a alimentação. Que não está comendo porque não sente vontade e seu corpo não sente necessidade e nem tem condições de assimilar o alimento. Bom, este paciente na grande maioria dos hospitais pode ser sondado. Isto é, passa-se uma sonda do nariz até o estômago para levar-lhe alimentos. Já tentaram imaginar o desconforto? Pra quê? Pra nada!

Mas não pára aí. Como a sonda é desconfortável, o paciente tenta arrancá-la. Quem quer ficar com uma sonda no nariz e atravessando a garganta? Não dá pra engolir direito, dá aquela sensação de que tem alguma coisa na garganta (e realmente tem) com a natural vontade de tossir, sei-lá, tirar aquilo de algum jeito. Mas, como o paciente tenta arrancá-la, o pensamento da equipe e família é "ele está agitado. Vamos ter que restringí-lo". Restringir é o nome bonito para amarrar suas mãos na cama. Já pensou?! Amarrado à cama, sem poder coçar o nariz, limpar a boca, nada. E com a sonda ainda incomodando.
Algumas vezes por dia este paciente ainda tem os dedos furados para fazer exames de glicemia. Tem acessos venosos para a infusão de medicação e que, pela fragilidade do paciente, veias mais finas, pele mais fina, mais a "agitação", muitas vezes se perdem e outras veias devem ser furadas para um novo acesso. Mais sofrimento.

E isto leva a quê? A mais sofrimento, apenas. A uma morte conturbada, sofrida, longe das pessoas que o amam, porque as visitas no hospital são restritas, porque muitos familiares não suportam ver esse sofrimento e nem imaginam que ele é desnecessário, que talvez tenham até culpa por ele, por não aceitarem que a morte é natural e vai acontecer. Exigem da equipe médica todo e qualquer esforço.

Pelo amor de Deus, não façam isso comigo! Quando chegar minha hora quero morrer em paz, perto dos meus! Não num leito estéril e impessoal, rodeado de pessoas que não compartilharam momentos em minha vida.

Por que aceitamos e desejamos isso para um cachorro e não nos permitimos isso a nós mesmos?!

domingo, 1 de novembro de 2009

Quem não chora não mama 2

Caramba, quero contar algumas histórias de pessoas que acabam buscando inconscientemente a doença em razão dos ganhos secundários, mas só me vêm à mente as histórias de pessoas que sacaneiam mesmo. Acho que é porque me deixa mais indignado.
Bom, atendemos uma paciente que tinha tropeçado no último degrau da escada da loja em que trabalhava. Na queda, ela torceu o joelho.
Entrou no ambulatório mancando bastante e, durante o exame físico, era só tocar em seu joelho e ela se contorcia de dor.
Era meio estranho, não tinha um padrão muito definido e não havia nenhum sinal inflamatório muito evidente.
Desconfiei e comecei a puxar conversa sobre outros assuntos sem tirar a mão de cima do seu joelho. Num determinado momento, ela se empolgou com a conversa e começou a falar animadamente. Nesta hora, comecei a apertar com mais força o joelho dela e nada! Nenhuma reclamação! Quando voltei a perguntar sobre o joelho, voltaram as caretas e as reclamações de dor.
Ao sair, mancava muito.
Escondido, saí atrás dela e vi que, ao chegar na rua, foi parando de mancar e rapidamente voltou a andar normalmente.
Estava com um processo contra o empregador!

domingo, 18 de outubro de 2009

Quem não chora não mama 1

Começo esta série com um caso meu. Para não ficar numa posição de julgar a atitude dos outros, começo com uma confissão.

Até hoje tenho, na familia, fama de não ter o intestino bom (se meu amigo Renê ler isso, com certeza seu comentário será "Too much sharing", mas...). Isto porque, um dia, após comer um produto de qualidade duvidosa, tive uma diarréia das brabas. Ruim , não é? Péssimo!! Mas com isso eu consegui realizar o maior desejo de 10 entre 10 crianças normais (sempre tem aquelas que não batem bem!), faltei à aula.

Após este dia, percebi que esta era uma ótima tática. Naqueles dias em que a preguiça de ir pra escola era maior que meus escrúpulos, entrava no banheiro próximo à hora de ir pra aula e ficava por uma meia hora. Quando minha mãe vinha perguntar se estava tudo bem, dizia que estava com diarréia. Quem iria conferir?!

Faltava à aula e minha mãe ainda fazia limonadas que dizia serem boas pra prender o intestino.

Uma mentirinha inocente, vai.
Chorei! E mamei!!

Quem não chora não mama! - A série

Inspirado no Seu Antônio, chefe dos porteiros do prédio em que morei a infância toda, começo esta série com mais um ditado popular. Inspirado nele porque todo causo, mas todo mesmo, que ele contava começava com - "É como diz o ditado, tem que respeitar os mais velhos..." - ou qualquer outro ditado que ele inventava na hora.

Neste caso, nomeei esta série com o ditado "Quem não chora não mama" para contar vários casos que de alguma forma têm a ver com ele. Com alguma forma de chorar para receber algo em troca.

Muitas das doenças e muitos dos pacientes que atendemos apresentam formas e frações variadas de chorar e mamar.

Alguns encontram na doença uma forma de serem cuidados, de receber carinho, de cobrar que resolvam suas carências. Encontram nela alguma vantagem que chamamos de ganho secundário da doença. Na maioria das vezes, a percepção destes ganhos secundários é subconsciente, mas em alguns casos ela pode ser totalmente consciente.

Em outras situações, as pessoas simulam os problemas para poderem usufruir dos ganhos secundários. E nestes casos estão incluídos desde inocentes dores de cabeça pra fugir de uma noite de sexo monótono com o marido barrigudo com quem se está casada há 30 anos, até casos de extremo mau caratismo.

Vamos aos casos...

sábado, 19 de setembro de 2009

A vida imita a arte

O título é meio poético, mas a história não! Na verdade, parece uma daquelas comédias do Leslie Nielsen, tipo "Corra que a polícia vem aí", em que o cara toma 20 tiros, sai cambaleando e bate a cabeça, depois ainda dá uma topada com o pé no pé da mesa, toma uma pancada no saco, antes de cair no mar e ser devorado por tubarões!
Foi uma aluna que contou que atendeu esta paciente. Aliás, Egli, não leve a mal, mas este nome merece entrar pra lista dos nomes diferentes...

Bom, a referida paciente estava andando no acostamento de uma estrada no litoral paulista e atrás dela vinha um homem a cavalo. Neste momento, vem passando um caminhão dirigido por uma amiga sua. A amiga, ao vê-la, buzinou para lhe dar um oi. O cavalo que vinha atrás dela se assutou com a buzina, saiu correndo e atropelou a mulher. Mas não foi só isso. Na queda, ela foi atirada contra o caminhão da amiga que a atropelou também. Disto, resultaram várias fraturas, lesões de partes moles e alguns anos de batalha para se reabilitar. E a luta continua!

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Só pra não ficar muito tempo sem postar

Estou totalmente sem tempo pra escrever. Então, só pra não esfriar demais seguem mais dois nomes bem diferentes.
  • Sindolfo
  • Alvarina

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Crônica de uma morte anunciada

E o que se anunciava aconteceu. Já faz um certo tempo. D. Ziza, do post "Deja Vu", faleceu.
Foi fazer uma nova cirurgia para limpeza do joelho infectado e troca do espaçador. Se não me engano, teve uma parada durante o ato cirúrgico e passou algum tempo na UTI antes de morrer.

sábado, 1 de agosto de 2009

Mais nomes

  • Selicinia
  • Lusdete
  • Adelmira
  • Delzo
  • Esmerinda
  • Jardelino

Evito colocar nomes estrangeiros pois, por mais que pareçam estranhos pra nós, podem ser comuns em suas línguas de origem, mas alguns são merecedores mesmo assim.

  • Yayoe
  • Kimiko

Pena não ter anotado, mas atendi a dois gregos que não tinham nomes pessoais, tinham nomes científicos.

Nunca é tarde pra começar!

Acabo de ler em um blog especializado em corrida que, Dona Mitico foi medalha de prata no mundial masters de atletismo na Finlândia na modalidade de marcha atlética que não é sua especialidade. Ainda vai competir nas provas de 5 e 10 Km.

Dona Mitico deve estar com 77 anos e começou a correr com 56. Antes disso era sedentária, trabalhava como costureira e chegou a ter alguns problemas sérios de saúde. Foi só após isso que, ao ser orientada a caminhar, começou a correr aos poucos para fugir da monotonia das caminhadas.

Dona Mitico foi paciente da Liga de Medicina Esportiva do Hospital das Clínicas na época em que eu era o supervisor. Isto deve ter sido por volta de 2003-4.
É uma japonesinha baixinha, deve ter por volta de 1,50, bem magrinha e com aquele olhar meio desconfiado, não era de muitas palavras, calculava bem o que ia dizer.

Logo fui percebendo o porquê. Ela chegou a nós para tratamento de uma fratura por estresse no osso do púbis. No momento da coleta da história percebemos que era meio difícil colher algumas informações relacionadas aos treinos e à dor. Quando perguntamos se tinha parado com os treinamentos disse que sim. Seu rosto deixou transparecer que era mentira. Ela escondia informações porque tinha medo que a proibíssimos de correr. Estava viciada, era seu maior prazer.

Dona Mitico treinava muito mais do que seu técnico orientava, maior quilometragem, mais tempo, maior frequência semanal. E assim "ganhou" esta fratura por estresse.

Mas Dona Mitico era uma simpatia. Tão pequenininha que dava vontade de pegar no colo. Carinha de levada, sempre escondia alguma coisa, mas deixava transparecer o mal-feito. E sempre levava bolinhos japoneses pra gente. Até hoje adoro um bolinho de feijão, que não sei o nome, mas que comi pela primeira vez quando ela fez pra nós.

Na época, seu sonho era conseguir disputar a maratona de Paris.

Dona Mitico, mais tarde, recebeu alta, voltou a competir e nunca mais a vi pessoalmente. Mas vivo recebendo notícias de seus sucessos. Uma vez, estava assistindo ao "Programa do Jô" e adivinha quem foi a entrevistada. Acho que tinha ganho a maratona de Paris na sua categoria. Depois, campeã mundial de maratona. Agora vice na marcha atlética.

Vai Dona Mitico! Toda sorte pra você nos 5 e 10 Km neste mundial!!
Sou muito fã. Fico muito feliz a cada notícia destas!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mais confusão

Pedi a uma aluna que fosse atender uma paciente com fratura de fêmur e Mal de Alzheimer.
Passados poucos minutos a aluna volta. Cara de assustada.
- O que foi?- Pergunto.
- Não consigo atender essa paciente!
- Por quê? O que aconteceu?
- Eu sei que é alucinação dela, mas eu tenho fobia de aranhas. E ela fica dizendo que tem um monte de aranha no quarto. Das grandes, caranguejeiras. Tentei ignorar, mas ela ficava dizendo: "Olha ali. Subindo. Que enorme!". Não dá, não consigo atendê-la.

Outra paciente com demência arrumou uma filhinha pra criar na enfermaria.
Devia ter uns 70 anos, não saia da cama. Cabelos compridos soltos, mas que não combinavam muito com ela, aparentemente, vivia com o cabelo sempre preso quando estava em casa. Usava dentaduras, mas estava sem, o que dava aquele aspecto de boca murcha.
Arrumou uma boneca que tratava por filha. Ninava a boneca o dia todo. Dava comida. Punha pra dormir...
Quando as filhas, rindo, perguntavam quem era o pai, ela prontamente dizia:
- É do Dr. Fábio.
- É mesmo? Mas o Dr. Fábio é muito novo pra senhora!
- Eu tô velha, mas ainda gosto de homem bonito.
O Dr. Fábio ficava todo encabulado. E as filhas diziam:
- Ó que safada. eu vou contar pro pai, hein!
- Pode contar! Aquele velho babão...
- Mãe!!!!!!!!

Mas o curioso mesmo é que, quando ela achava que não tinha ninguém olhando, enrolava um pedacinho de papel e dava pra criança fumar.
Pode?!

Mais alguns nomes diferentes

  1. Nirceu
  2. Nereu
  3. Orany
  4. Germenia
  5. Reinor

terça-feira, 9 de junho de 2009

DEJA VU

Interessante como, apesar de cada ser humano ser único e, portanto, haver uma infinidade de comportamentos frente às demandas da vida, algumas situações se repetem com certa freqüência.

Cabe notar que a experiência vivida anteriormente nem sempre é útil para que possamos fazer a situação atual ter outro desfecho. Mas serve para que compreendamos melhor o que se está passando e, neste caso específico, para reafirmar que o indivíduo é o único responsável por seu destino. Nós outros podemos ser apenas facilitadores (ou “dificultadores”) do processo.

Neste momento, estou passando por uma situação semelhante à ocorrida no post “motivação para viver 1”. Na ocasião Dona Ana se recusou a continuar vivendo mesmo tendo totais condições para isso. E foi morrendo aos poucos.

Dona Ziza não é tão radical quanto foi D. Ana. Ela nunca pediu deliberadamente pra morrer. Nem mesmo acredito que seja intenção dela renunciar à vida. Mas é isto que vem ocorrendo. O custo de lutar parece estar superando a possibilidade de benefício em caso de êxito na luta e, então, a saída natural pode ser desistir aos poucos.

Ela também vem de uma cirurgia ortopédica em que ocorreu infecção. Neste caso, no joelho e com uma infecção mais grave. Tem cerca de 65 anos, mora com uma filha e com o cachorro. É obesa, o que dificulta bastante sua movimentação no leito e a mudança de posturas. Virar-se na cama já é um desafio razoável.

Operou para colocação de prótese no joelho em outro hospital e já chegou a nós sem a prótese, retirada por conta da infecção. No local da prótese, apenas cimento ortopédico para manter o espaço articular até que se possa operar novamente. E dá-lhe antibióticos!

A obesidade e um pouco de dor no joelho limitam enormemente sua mobilidade. Precisamos treinar sua independência para se movimentar no leito, sentar e atingir o objetivo maior de conseguir ficar em pé e se locomover sem descarregar o peso na perna operada. Para isso, ela precisa de um treinamento de força intenso associado a um treino funcional adequado.

Aí é que começam as complicações. Este treinamento precisa ocorrer numa freqüência maior do que somente nos períodos em que estamos presentes na enfermaria. Ela precisa treinar sozinha conforme nossa orientação. Mas jacaré treinou? Nem ela! (estou lendo Macunaíma, e não pude conter o ímpeto de plagiar Mário de Andrade).

A cada dia deitada no leito de hospital, sem se mover direito, maior a perda de força. Quanto menor sua força, mais dificuldade para se mover. Quanto menos mobilidade, maior a chance de outras complicações. Este é o ciclo em que ela se encontra. A saída. Óbvio. Passar a se exercitar e se mover mais.

Como a cama do hospital é alta, há uma dificuldade maior em retirá-la para ficar de pé. Temos usado um guindaste especial para pacientes obesos para tirá-la da cama e colocá-la sentada na poltrona. Da poltrona, com a ajuda de um andador, eu e mais 3 fisioterapeutas lhe ajudamos a ficar de pé. Ela permanece assim por menos de um minuto, e já faz força pra sentar.
Como sou o único fisioterapeuta homem da enfermaria, e só estou lá 2 vezes por semana, ela fica em pé cerca de 4-5 minutos a cada semana. Recusa-se a ficar de pé só com o auxílio de mulheres, não confia que tenham força pra ajudá-la.

Expliquei-lhe diversas vezes a importância dos exercícios, as conseqüências de não fazê-los. Ela compreende, promete empenhar-se, mas a cada dia uma nova desculpa.

Também não é tão simples assim. Não estou sendo totalmente justo com ela. São mais de 40 dias de internação hospitalar. Um ambiente em que não se tem absolutamente nada pra fazer, a não ser esperar pela alta. Privacidade nenhuma. Pequenas “torturas” diárias: fura o dedo pra ver a glicemia; Fura a veia pras medicações; banho no leito; evacuar e urinar na comadre (tipo de bacia), deitada e não no banheiro; pouca qualidade de sono por diversas intervenções noturnas e início da rotina às 7:00 da manhã; comida sem sal; solidão. É de deprimir qualquer um!

Mas alguns usam estas dificuldades como motivação para tenta se recuperar o mais rápido possível. E a vida pode ser melhor mesmo nestas condições. Imagine a melhora na qualidade de vida se ela for capaz de se mover e locomover sozinha.

Na tentativa de animá-la, perguntei sobre seu cachorro. Com um largo sorriso no rosto conta do amor que tem pelo bichinho.

- Agora vamos ficar de pé?
- Vamos!

30 segundos depois.

- Quero sentar!
- Só mais 10 segundos.
- Não. – E faz força para sentar.

Outro dia, a situação ficou ainda pior.

- Hoje eu não vou fazer nada porque tô com uns problemas...
Eu, já sabendo do que se tratava, perguntei.

- A senhora quer falar sobre isso?
- A gente cria os filhos, cuida deles, e quando chega a nossa vez, eles não querem saber! Eu tenho casa. Se eu não tivesse casa... Mas eu tenho e não posso voltar pra lá. Minha filha disse que vai me mandar prum asilo. Vou ficar abandonada lá. Largada! Fazer o quê? A mãe faz tudo pelo filho, o filho não faz pela mãe.
- Dona Ziza, eu entendo que a senhora esteja muito chateada. Qualquer um estaria. Deixa passar esse momento de raiva, pensa bastante sobre isso, mas tenho certeza de que sua filha está pensando no melhor pra senhora. Ela trabalha, não trabalha? E a senhora não está conseguindo andar. Se aqui no hospital com tanta gente especializada pra ajudar já é difícil, imagina em casa, sozinha. Como ia ser? Lá na instituição que a senhora vai, vai ter gente pra te ajudar.
- É. Eu sei, mas...
-... Se eu estivesse andando... Eu vou andar! Você vai ver! Eu vou andar!
- Isso Dona Ziza! Hoje, digere direito tudo isso. Pensa na situação da sua filha. Ela quer o melhor pra você. E depois, tem que fazer os exercícios. Se fizer, vai ficar cada vez mais fácil ficar de pé. E tem que ficar em pé com as meninas também. Não pode ser só quando eu estiver aqui. Aí, quem sabe, a senhora, andando, não volta pra casa?!

Toda essa determinação durou 2 dias... E Dona Ziza, que sempre foi muito bem orientada, já começou a falar coisas desconexas, frases sem sentido.

A luta continua. Esperamos que o final seja feliz!

EDUCAÇÃO

Parte importante do trabalho dos profissionais de saúde é educar a população. Vamos pensar um pouco, então.

O que fez com que Dona Ziza chegasse a esta situação? O acaso de uma cirurgia mal sucedida? A bactéria malvada que se infiltrou sorrateiramente em seu joelho durante a cirurgia?

Não! O que colocou Dona Ziza na situação em que está foram atitudes pouco saudáveis na juventude. Sua obesidade foi fator determinante no desenvolvimento da osteoartrose (desgaste da articulação) do joelho, que a levou à mesa de cirurgia. Esta mesma obesidade que dificulta bastante a reabilitação e a qualidade de vida no pós-operatório. Isto, associado a um sedentarismo crônico que faz com que seus músculos não suportem o peso do corpo.

Não se esqueça. A maior parte das doenças da velhice começa na infância. Você planta hoje o que vai colher no futuro. Plante comportamentos saudáveis! E não se esqueça de regar sempre.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Confusão

- O Sr. mora com quem, Sr. Lineu?
- Com meu irmão.
- Ele é mais novo que você?
- Não, mais velho.
- Ah, quantos anos ele tem?
- 22.
- E o Sr.?
- 18.

Seu Lineu estava internado na enfermaria da geriatria do HC. Dá pra imaginar que ele tem bem mais que 18 anos.

Na semana seguinte, Seu Lineu estava um pouco pior, reclamando de dores nas pernas e pedia a medicação.

- Seu Lineu, conversei com a enfermeira e ela me disse que acabou de lhe dar o remédio pra dor. Espere um pouco que logo faz efeito.
Ele resmunga com raiva. - Não vem me falar disso. Acabou de dar o remédio! Ninguém me deu o remédio, faz horas que eu tô aqui pedindo o remédio! Vou falar com o meu irmão, ele vai processar vocês todos! Como podem me tratar assim? Eu tô com quase 140 anos!!
- É mesmo Seu Lineu? Quase 140 anos?
- É, quase 140.
- Mas o Sr. está muito bem pra sua idade...

Afasto-me um pouco esperando o remédio fazer efeito. No leito ao lado, um senhor sentado na cama, comendo seu café da manhã. Um pão com manteiga e café com leite. Pijama do hospital, uma boina na cabeça. Rosto redondo, barba começando a nascer, branquinha. Parecia um Bezerra da Silva mais gordinho. Não o conhecia. Tinha sido internado no fim de semana.
- E o senhor, seu Paulo. Tudo bem?
Com um carregado sotaque baiano e a voz oscilando em volume e tom. - ÉéÉé, muito bEem eu num tôÔ.
- É né, senão o Sr. não estaria aqui... Por quê o Sr. está internado?
- Óói, EeeEu num sei NÃão. Eeesses otros aí (aponta para os outros 3 pacientes do quarto), tão mais ruim. TeEm que tá internado mesm. MaAs eEeu num tenh porque tá internado. Eee ói que eu sô o mais véi daqui.
- É mesmo Sr Paulo? Quantos anos você tem?
Tinha 78, mas responde. - Óóói, deve di ser quase uns 100.
- Quase 100!!
-ÉééÉ!
- Então o Sr. é mais novo que o Seu Lineu. Ele está com 140!
- Ié!? Éé mesm, ele tá bem véio.
A enfermeira que ouviu tudo comenta. - Êta, esse quarto tá bom hoje!! - risos.

Pacientes com confusão mental oscilam bastante. Podem emitir desde sons ininteligíveis até discursos que fazem sentido, mas que não tem nada a ver com realidade. Passando por aqueles que respondem palavras existentes mas sem contexto. Como alguém que conheço, que após ingerir chá alucinógeno, só respondia "Cogumelo!", qualquer que fosse a pergunta feita.

Sempre achei muito interessante conversar com estes pacientes confusos, que tem o discurso normal, mas que estão vivendo uma outra realidade. Adoro ir perguntando coisas para ver qual é a realidade em que vivem. Também sondo para ver se há algo mais místico nesta realidade alternativa, algum sinal, um alerta, alguma mensagem, alguma sabedoria que possa ser útil. Ainda mais depois de uma passagem que se deu quando eu supervisionava o estágio de uma ex-namorada.

Nós namorávamos há alguns anos, e terminamos justamente quando ela estava passando em estágio curricular sob minha supervisão. Mesmo antes de terminarmos, nunca agíamos como namorados no hospital. Lá, pouca gente sabia.

Pedi a ela que atendesse Dona Margarida. Na primeira vez que a vi, D. Margarida me perguntou se eu já havia dado água aos cavalos e perguntou se o Chico já tinha ido apartar as vacas. Não falava coisa com coisa. Na última semana eu não conseguia nem compreender as palavras que saiam de sua boca.
Mas quando minha ex-namorada chegou para atendê-la, Dona Margarida foi logo falando.
- Ô minha filha, você brigou com seu namorado?! Não fica triste não, vocês vão voltar.
Nisto, eu entrei no quarto e ela olhou pra mim e disse. - Olha ele aí. Ele é o seu namorado.
Eu sem entender nada perguntei. - Você contou a ela?
- Não, eu entrei e ela começou a falar essas coisas.
- Como você sabia Dona Margarida?
Ela não voltou a falar coisa com coisa. Dois meses depois, tínhamos voltado a namorar.

Alguns anos depois, puxei conversa com uma paciente que estava deitada numa maca à porta do quarto esperando que acabassem de arrumar seu leito. Tinha acabado de vir da UTI, era bastante idosa, e este fato ocorreu poucos dias antes de sua morte.
Não entendi quase nada do que ela falou, mas ouvi claramente meu nome: Cássio.
Não tinha me apresentado, como ela sabia meu nome?
Ela começou a contar alguma coisa. Estava difícil de entender. Insisti. Parecia que ela estava falando alguma coisa sobre mim.
Aí entendi:- O Cássio é rico.
Não consegui conter o sorriso. É um sinal!! Esta senhora, à beira da morte, não sabia o meu nome e de repente diz que eu sou rico! É um sinal! Vou ficar rico!!
Saí cheio de esperança.
A tarde vem um sobrinho dela visitá-la, vindo dos Estados Unidos trabalhava lá fazia bastante tempo. Tinha feito uma pequena fortuna. Adivinha seu nome...

Quanta confusão!!

terça-feira, 7 de abril de 2009

Mais nomes diferentes

Dei uma olhada na relação de pacientes de meu ambulatório no HC. Eis alguns nomes:
  1. Aldenice
  2. Creuzanice
  3. Océlia
  4. Erotides
  5. Gricelina
  6. EdMa
  7. Dalveny
  8. Claudionice
  9. Pradelina
  10. Elita

É melhor um cachorro amigo que um amigo cachorro? 2

Para que o post anterior não ficasse muito longo, deixei esta outra história para um novo post. É curta, porque não acompanhei o caso muito de perto.

Outro caso trágico envolvendo animais e idosos.

A filha trouxe a mãe da Bahia para morar com ela em São Paulo, porque a mãe estava com Alzheimer e já começava a fazer coisas como esquecer o gás ligado.

A nova rotina de vida numa cidade estranha deixou a mãe ainda mais confusa. Um dia a filha precisou sair e trancou a mãe em casa para que ela não fosse para a rua e não se perdesse. Avisou a mãe que não fosse ao quintal porque o cachorro era bravo.

Quando a filha chegou, encontrou a porta do quintal aberta e a mãe caída no chão da cozinha. Pelo que se pôde apurar depois, a mãe abriu a porta da cozinha e o cachorro, um Rottweiller, avançou sobre ela. Deu várias mordidas no rosto e no braço, mas o pior foi na coxa esquerda, o cachorro arrancou grande parte dos tecidos moles.

No hospital, a senhora que já tinha 82 anos, passou por cirurgias plásticas reparadoras, mas não suportou e veio a falecer.

segunda-feira, 30 de março de 2009

É melhor um cachorro amigo que um amigo cachorro?



Animais de estimação são como membros da família. A Marli, técnica de enfermagem do HU, e eu nos chamamos de "parentes", porque eu dei a ela a Luci, uma filhotinha do meu cachorro. Aliás, o meu cachorro (foto) merece entrar nos posts de nomes diferentes. Ele se chama Cumulinho.

Voltando ao assunto, é inegável o papel de companheiros que os bichinhos de estimação representam na nossa sociedade urbana cheia de meios virtuais de relacionamento, mas cada vez mais solitária em relação à presença física do outro.

Os idosos, em especial, costumam ter uma relação de muita proximidade com os animais de estimação. O afastamento natural de filhos e netos no dia-a-dia corrido das grandes cidades, aliado à dificuldade de sair de casa e participar de eventos sociais, faz com que gatos, cachorros e outros bichos se tornem os principais companheiros dos velhinhos.

E quando os bichinhos morrem, às vezes o luto é mais difícil que quando morre um familiar.

Um senhor, que mora perto de onde eu morava, toda vez que me via passeando com o Bartô (um salcichinha) me parava pra falar do cachorro dele.

Devia ter uns 75 anos (o senhor, não o cachorro), alto, magro, cabelos muito brancos, aquela tranquilidade de gente do interior, apesar de morar no coração da Vila Madalena.

Ele já vinha de longe, fazendo aquele movimento com os dedos de quem quer chamar um cachorro, esfregando o polegar no segundo e terceiro dedos. E vinha estalando os lábios, mandando beijinhos, falando como quem fala com nenenzinhos. - Ô nenê. Que bonitinho! Vem cá. Que coisinha mais bonita, meu Deus!

E seguia: - Que maravilha né. Eles são muito companheiros. Olha vou te falar. Eu tinha um desses. Igualzinho. Mas faz uns 4 anos que morreu atropelado. Aqui em frente de casa. O portão ficou aberto e ele saiu pra rua. Um fusquinha pegou ele.

Nesse momento seus olhos começavam a se encher d'água. E prosseguia:

- Ah meu Deus, é uma tristeza. Olha eu sou médico, já vi muita gente morrer. Nem ligo muito quando morre gente. Tem gente que não presta, faz muita maldade. Mas um bichinho destes, é uma covardia. eles são puros, não fazem mal pra ninguém...

E assim ia. Se eu o encontrasse todo dia, todo dia era o mesmo papo. Pode ser um início de demência? Talvez sim, mas o fato é que a morte do cachorrinho dele foi muito traumatizante.



Nesta relação tão próxima de homens e animais vi alguns acidentes fatais acontecerem.



Vi alguns casos de idosos que ficaram muito debilitados ou morreram por causa dos bichinhos. Não, não é nenhuma doença transmitida por eles. Veja o caso a seguir:

Dona Aparecida, a Cida, 85 anos, tinha uma filha que morava com ela e dois cachorros, Vermelho e Tostado. Vermelho era um cocker de pelagem marrom-avermelhada e Tostado era um vira-latas todinho preto. Eram a alegria de Dona Cida. Adorava a companhia que faziam, mas o que mais gostava mesmo era "da festa que fazem quando eu chego em casa. Ai, às vezes eu dou só uma saidinha rápida, vou na padaria comprar um pãozinho. Coisa de 10 minutos. Mas quando eu chego é aquela festa. Antes de eu chegar em casa já ouço os latidos. Quando eu vou me aproximando da porta, ouço as fungadas deles no vão debaixo da porta. Aí, quando eu abro a porta é aquela correria. Eles saem correndo, fazem a volta atrás da mesa, vêm em minha direção, fazem a volta atrás de mim, pulam no sofá. É uma euforia. Adoro isso. Minha filha só abre a boca pra criticar, pra falar mal. O Vermelho e o Tostado não, eles gostam da minha companhia."

Nas tardes em que ficava em casa, Cida gostava de assistir televisão com o Tostado dormindo em seu colo e o Vermelho deitado no chão. Nos dias frios, gostava do Vermelho dormindo sobre seus pés, aquecendo-os. Numa destas tardes, Torrado foi se deitar no chão ao lado de Vermelho. Cida não o viu e, quando se levantou do sofá, pisou na pata dele. Tostado latiu assustado e Cida tirou rapidamente o pé de cima da pata dele, mas se desequilibrou. Na tentativa de se equilibrar deu um passo, mas tropeçou em Vermelho que se levantava assustado com o latido do outro. Na queda Cida fraturou o fêmur.

Cida foi internada para tratamento cirúrgico da fratura e, enquanto aguardava a cirurgia, permaneceu com tração cutânea no membro fraturado (veja o post "Quando chega a hora", lá há uma foto de uma tração esquelética, a diferença é que na tração cutânea não há um fio atravessando pele e ossos). Devido à fratura e à tração, Cida só podia permanecer deitada de barriga para cima.

No momento da internação, Cida estava completamente lúcida. Adorava conversar para passar o tempo, e seus assuntos prediletos, namoros e seus cachorros. Sempre peguntava sobre namoradas, contava suas aventuras da adolescência e depois várias histórias da dupla Vermelho e Tostado.

Mas a cirurgia começou a demorar para ser realizada. Era necessário avaliar o grau de risco da cirurgia e, para isso, vários exames foram feitos. A cirurgia foi liberada, mas com recomendação de que a recuperação no pós-operatório imediato fosse feita em UTI. A cirurgia foi marcada algumas vezes, mas depois desmarcada por falta de vaga na UTI. Em todas estas vezes, Cida ficou em Jejum para a cirurgia, que não ocorreu.

No hospital tem uma máxima que diz "idoso na cama morre". E Cida foi ficando cada vez mais debilitada. Deitada sempre na mesma posição, foi ficando confusa, fraca, parou de conversar. Por fim, morreu.

Pobres Vermelho e Tostado, condenados por formação de quadrilha e homicídio culposo, foram banidos da casa que agora é da filha de Cida.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Motoboys e mulheres ao volante

No período em que trabalhei na Clínica Cirúrgica do HU deparei-me com alguns acidentes meio bizarros.

Motoboys eram presença constante na enfermaria. Quem mora em São Paulo sabe como eles pilotam suas motos pelo trânsito caótico. O interessante é que, nunca, nenhum deles se considerou culpado pelo acidente. Sempre tinha uma "mulher louca que me fechou", "que passou no farol vermelho", etc...

Um deles não era motoboy, era um estudante da USP de Pirassununga que usava a moto como meio de locomoção e não parecia ser o tipo de cara que fazia loucuras no trânsito.
Pois ele se envolveu num acidente com excesso de álcool! Muita caninha 51.

Ele foi atropelado por um caminhão carregado de cachaça. O pior é que o caminhoneiro, quando percebeu o acidente, parou o caminhão com uma das rodas sobre o joelho do motoqueiro. As pessoas na rua gritavam para ele andar com o caminhão, mas ele não entendia o porque. Quando ele finalmente acelerou, o pneu girou sobre a perna do motoqueiro e arrancou um "pedaço da carne". Graças a Deus, após algumas cirurgias, o estudante ficou bem e voltou a andar numa boa.

Outro motoqueiro teve múltiplas fraturas na perna porque atropelou um carro da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) que estava parado no acostamento da marginal pinheiros com aqueles faróis sinalizadores ligados no alto do carro e cones no chão. Adivinha de quem foi a culpa.

Agora, os acidentes mais curiosos envolveram mulheres ao volante. Longe de mim ser machista. Estou apenas contando o que aconteceu. Uma mulher foi atropelada por ela mesma. Outra foi atropelada pela própria mãe.



A primeira foi lembrada esta semana por uma ex-aluna (Raquel). Passei o caso a ela, uma mulher com lesão no ligamento cruzado posterior dos dois joelhos devido a um acidente automobilístico. A Raquel, quando foi atender, quis saber como tinha sido o acidente.
- Deixa pra lá. Foi bobagem.
- Como assim?
A paciente toda sem graça. - Fui atropelada por mim mesma.
- COMO ASSIM?!!
- Estacionei numa ladeira e esqueci de puxar o freio de mão. Aí o carro começou a descer e eu quis segurá-lo, acabei sendo atropelada pelo meu próprio carro.

A outra estava internada com fraturas na bacia, fêmur, úmero e escoriações pelo corpo todo. Foi abrir o portão de casa para a mãe sair com o carro. A mãe não sabia dirigir direito e, antes da filha sair da frente, arrancou com tudo. Atropelou a filha que foi parar debaixo do carro no meio da Av. Pedroso de Moraes. Avenida movimentada e de fluxo rápido. Um carro que vinha a 60 Km/h ainda bateu no carro da mãe, com ela embaixo.

Não sei porque, mas me lembrei do meu primeiro ano de faculdade. Das aventuras de minha amiga Karin (http://www.orgonio.blogspot.com/) com seu chevettinho Paulinho. E de minha querida tia Cleuza.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Começando de leve

Seguindo o bordão de que o ano no Brasil só começa após o carnaval, vou encerrando minhas longas férias do blog. Mas começo de leve.
Aí vão mais alguns nomes diferentes:

1. EdOardo (Edo, para os íntimos)

2. Icetea ( inspirado numa famosa marca de bebida)

3. Selvina

4. Adelina

5. Sibila

7. Alethéa

8. Marcrebio

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Visões

Dona Raquel tinha 84 anos, aparentava 60, alto astral, sempre sorridente, cheia de histórias pra contar. Era independente, morava sozinha e nunca havia se casado.
Ela estava no hospital porque havia passado por uma cirurgia de retirada de tumor de partes moles na coxa esquerda e aguardava condições para realização de uma cirurgia plástica reparadora.
Dona Raquel era muito ativa. Quando jovem tinha sido jogadora de basquete. Adorava jogar, a despeito das críticas da mãe que achava que isso não era coisa de moças. Para ela era uma tortura ter que ficar restrita ao leito e, por isso, sempre que podia eu ia conversar com ela. Ela adorava estas visitas, elogiava meu sorriso, pedia que eu voltasse sempre.
Uma aluna a estava atendendo e, após o atendimento, perguntei:

- E aí, como foi com a D. Raquel?

- Foi tudo bem. Ela está ótima. Só aconteceu uma coisa muito estranha!

- O que foi?

- Quando você saiu do quarto, ela, de olhos fechados perguntou: "Quem está aí com você?", eu disse a ela que não tinha ninguém, que você tinha acabado de sair. Ela então disse: "Não, tem alguém aí com você. Sempre que você entra no quarto ele entra com você e fica massageando minha barriga e o meu coração. O Cássio também, quando entra, tem sempre alguém com ele." Aí, mudei de assunto, fingi que ela não tinha dito nada. Deus me livre!

- É mesmo? Ela disse isso? Adoro essas histórias. Vou lá falar com ela.

Dona Raquel me disse que desde pequena via pessoas assim. Um deles a acompanhava desde menina. "Tem cara de estrangeiro, cabelo vermelho, rosto vermelho, pele bem branca. Não fala nada. Vem e fica parado na minha frente, faz alguns gestos e vai embora. Mas não gosto muito de falar nisso. As pessoas não entendem."
Quando saí do quarto, contei a história para a enfermeira Fátima. Ela disse:

- É, tem um monte de pacientes que vêem coisas assim. Tinha um que dizia que, sempre que eu ia fazer o curativo dele, ele via mais 3 pessoas ajudando no procedimento.

Doenças estranhas


Além do paciente com "esperma de galinha" (veja postagem anterior), outras me foram relatadas.

A Liliam, do hospital universitário, lembrou do paciente com "peniscite" (apendicite) e "ursa no istrombo" (úlcera no estômago).

O Maurício me falou da "Ursa perfumada de Diadema" (úlcera perfurada do duodeno).

Eu atendi uma com "quebradura na bolachinha do joelho" (fratura de patela).

Isso sem falar no sem número de pessoas com o "sistema nervoso" devido ao estresse da vida corrida e o tal do nervinho que é danado pra dar nó.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Crianças no quarto

Estava atendendo uma paciente idosa e lúcida. Bem orientada. De repente ela fala:
- Tá cheio de crianças aqui.
- É, a maternidade é no andar de baixo. Dá pra ouví-las chorando, né?!
- Não, tá cheio de crianças aqui no quarto!!
- Como assim?!
A filha interveio: - Ela é médium.- E encerrou o assunto.

Cheiro de rosas

A enfermeira Fátima quando chega na enfermaria e sente cheiro de rosas já sabe, algum paciente vai morrer no seu plantão.
Quando perguntei a ela sobre essa história, disse:
- Ué, você nunca sentiu? Um monte de gente sente. A Elizete, a Marli... É batata, você sente cheiro de rosas no corredor, pode saber, alguém está morrendo.

Preconceito

Nunca achei que fosse preconceituoso. Nunca admiti que pudesse ser. Sabe aquele papo de tenho amigos negros, gays... Converso com todos, trato bem qualquer pessoa, do faxineiro ao dono da empresa. Pois é, conversa pra boi dormir. De uma maneira ou de outra nosso preconceito mostra as caras e, sinceramente, não acredito que exista alguém livre dele.

Segue que eu estava atendendo um paciente baleado no tórax. Era um adolescente, feições bonitas, educado, respeitoso, cara de assustado com a experiência que acabara de passar, branco, meio loirinho. A bala tinha perfurado o pulmão e, após a cirurgia, estava com um dreno torácico (um tubo do calibre do dedo indicador atravessando entre as costelas para dentro da cavidade torácica), o que também gera dor e medo.

Durante a terapia perguntei a ele como havia sido o episódio. Ele, segurando as mãos, coluna curvada, baixou os olhos, e disse:
- Tenho vergonha de dizer.
- Diga, não precisa se envergonhar.
- Foi num assalto.
Eu, surpreso: - Mas qual a razão pra se envergonhar se foi assaltado?

Ele ficou em silêncio e seguimos a terapia sem tocar mais no assunto.
Quando acabei, ao sair do quarto, deparei-me com a responsável do conselho tutelar de menores que estava ali "de guarda". O menino baleado não era vítima do assalto, era o assaltante. Sua aparência fez com que essa possibilidade nem passasse pela minha cabeça. Quando ele disse que tinha sido baleado num assalto eu logo concluí que ele era vítima, mesmo ele dizendo que estava envergonhado com o episódio.

A meu favor, apenas o fato de que ele realmente tinha um bom coração e, de alguma forma, tinha sido vítima na história. Seu arrependimento e vergonha eram verdadeiros. Depois ele me contou a história toda.

Ele vendia balas na rua, ganhava seu dinheirinho honestamente. Mas vivia sendo assediado por uns marginais da área. Sempre o chamavam pra realizar assaltos e ele se negava. Um dia pressionaram mais e ele acabou topando, talvez deslumbrado por promessas de dinheiro fácil.

Foram a uma loja de conveniências num posto de gasolina e anunciaram o assalto. Dentro da loja havia uma policial civil que sacou a arma e atirou contra ele. Os outros conseguiram fugir e ele ficou baleado.

Quantas vezes tomamos decisões erradas, temos atitudes das quais nos envergonhamos? A diferença é que nossas opções, normalmente, são melhores. Uma decisão errada e ele quase perde a vida. Perde a vida para o crime. Se tivesse tido sucesso no assalto, talvez ele tivesse "seguido carreira". O tiro foi um presente, um aviso que o caminho estava errado. Tenho certeza de que ele estava verdadeiramente arrependido e não tornaria a cometer o mesmo erro. Opinião compartilhada pela tutora e enfermeiras do hospital.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Eu te trouxe, eu te levo?

- Mãe! Mãe!
Era o Sr. Paulo com os braços esticados em direção ao pé da cama. Como se a mãe estivesse ali.
Paulo tinha em torno de 78 anos e tinha passado por alguma cirurgia abdominal, não me recordo qual. Ficou cerca de um mês internado e evoluiu com períodos de confusão mental.
Já havia algum tempo não respondia às minhas questões ou meus comandos de forma orientada.
Neste dia passou a se comportar como se a mãe estivesse ali e chamava por ela repetidas vezes. Em alguns momentos sua expressão se alterava, seus olhos brilhavam, adquiria um ar sereno, um leve sorriso no rosto, olhava para um canto vazio do quarto e falava - Mãe. - Como se ela o estivesse afagando.

No dia seguinte o quarto do Sr. Paulo estava vazio. Ele havia falecido durante a noite.

Vi cenas como estas acontecerem algumas vezes. Quando uma pessoa que não tem mais a mãe viva, começa a chamar por ela, a agir como se ela estivesse presente, normalmente a morte está próxima.

Isto pode ser um instinto natural. Crianças em situação de perigo, de desconforto, de medo, chamam incessantemente pela mãe. Pode ser que o idoso confuso, numa situação de internação hospitalar, com medo e desconforto use da mesma estratégia.

Mas, não será que a mulher que nos trouxe a este mundo também nos ajuda no momento de deixá-lo?

Mais nomes diferentes

Depois da postagem anterior algumas pessoas me deram outros exemplos.




  1. Urubulino


  2. Leididai (Homenagem à Lady Di)


  3. Epitélio e Endotélio (estes dois são irmãos, talvez o pai tenha confundido seu livro de histologia com o dicionário de nomes)


  4. Mamédio (esse eu mesmo atendi)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Motivação para viver 2

Algum tempo após a morte de dona Ana fui chamado a avaliar um outro caso. O médico que estava atendendo o Márcio me contou brevemente a história do paciente. Tinha acabado de vir para a enfermaria transferido da UTI após 45 dias de internação. Neste período, permaneceu em ventilação mecânica (respirando com o auxílio de aparelhos) e com o tórax aberto para a drenagem de uma pericardite. Não acreditavam que ele saísse da UTI, mas saiu.

Fui consultar o prontuário do Márcio para saber mais a seu respeito. Como havia sido sua evolução no período em que esteve na UTI. O prontuário era enorme e teve que ser dividido em duas pastas. Demorei mais de meia hora lendo-o.

Além da doença de base, todo o tempo que passou na UTI trouxe conseqüencias. Márcio já não respirava por aparelhos, mas tinha uma traqueostomia (abertura cirúrgica da traquéia um pouco abaixo do pomo de adão para permitir a respiração), estava caquético, alimentava-se por sonda naso-gástrica (o alimento era introduzido diretamente no estômago por uma sonda que entra pelo nariz e vai até ele), tinha tratado uma pneumonia hospitalar, tinha pequenas feridas abertas (úlceras de pressão) no occipital (nuca) e na região do sacro. As articulações do joelho e cotovelo apresentavam limitação de movimento e não esticavam completamente.

Não me lembro exatamente do quadro, mas me vem à cabeça agora que talvez tivesse tuberculose também. Confesso que cheguei no quarto dele receoso de atender um caso tão grave. Tornei-me fisioterapeuta para trabalhar com atletas que, aliás, é minha especialidade. Nunca tinha pensado em trabalhar em hospitais. Por isso fico apreensivo com alguns casos em que o paciente está clinicamente instável.

Ao entrar no quarto me deparei com um quadro que justificava meu receio. Pelo menos pra mim.

Márcio tinha 39 anos e aparência de pelo menos 49, estava "pele e osso" e colorido de várias tonalidades, do roxo ao amarelo, devido aos hematomas gerados por diversas punções venosas ao longo da internação hospitalar. Respirava pela traqueostomia e a cada expiração uma quantidade razoável de secreção saía pela cânula voltando a entrar na inspiração seguinte. Isto, acompanhado do ruído característico do ar entrando e saíndo por um tubo cheio de "catarro". Tinha uma fraqueza generalizada na qual os músculos mais fortes conseguiam no máximo vencer a ação da gravidade, mas nenhuma resistência extra. Como Márcio não saía da cama, evacuava em fraldas. Se você está fazendo um retrato mental da cena, tente acrescentar um pouco de cheiro.

- Bom dia, Márcio. Meu nome é Cássio, sou fisioterapeuta e vim dar uma olhada em você. Você é sãopaulino? Porque se for corintiano vou judiar mais!! (Essa sempre funciona pra quebrar o gelo)

Márcio não respondeu por causa da traqueostomia, mas deu um sorriso tão espontâneo, tão alegre, como é raro ver em pessoas saudáveis. Naquele momento vi que se tratava de alguém especial.

Além de melhorar a função respiratória, nosso objetivo era aumentar sua força e massa muscular. A nutricionista entraria com dieta hipercalórica e nós com exercícios. Fiz alguns exercícios com ele e orientei que fizesse sozinho na minha ausência. Dois dias depois tive que avisá-lo para não fazer tanto exercício. O repouso também era importante.

Márcio se mostrou totalmente colaborativo, tinha uma alegria própria, a princípio inimaginável para alguém na sua situação. Tinha muita vontade de viver, a ambição de voltar a comer, saudade do gosto da comida e uma enorme vontade de ficar bem e ir pra casa.

Em pouco tempo voltou a comer. Pacientes assim podem não ter boa aceitação alimentar no começo. Não toleram muito alimento nem alimentos mais pesados. Mas que nada! Márcio repetia todas as refeições e sonhava com uma feijoada.

Ele ficou em pé pela primeira vez desde a data da internação com nosso auxílio e permaneceu por apenas alguns segundos devido a uma hipotensão postural. No dia seguinte, com nosso auxílio, caminhou até o banheiro. Libertou-se das fraldas. Neste meio-tempo sua traqueostomia foi fechada e ele voltou a respirar pelo nariz.

Treinamos seu equilíbrio e, assim que foi possível, orientamos que fizesse caminhadas pelos corredores da enfermaria. Sugerimos 3 vezes ao dia. Márcio caminhava o dia inteiro. Conversava com todo mundo com sua voz rouca devido a intubação ter machucado suas cordas vocais. Passou a ser querido por todos na enfermaria. Quando eu queria procurá-lo não ia ao seu quarto, era onde menos ficava. Certamente estava batendo papo com algum outro paciente.

Em pouco tempo Márcio foi pra casa. Soube que a primeira refeição foi uma feijoada, assistindo ao jogo do Palmeiras, seu time do coração.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Motivação para viver 1

Viver, em qualquer condição, é uma luta. Para continuarmos vivos precisamos agir, e agir é custoso, demanda energia. Precisamos acordar de manhã e enfrentar a vida que, no seu nível mais básico, exige que consigamos o que comer e fujamos de ameaças. Num nível mais complexo exige que representemos um papel na sociedade, que consigamos a aprovação dos semelhantes (do chefe, dos pais, dos alunos, clientes, vizinhos, de desconhecidos) para obtermos meios materiais e emocionais de melhor manter nossa vida e as de outras pessoas que porventura dependam da nossa.
Isso exige coragem! Coragem e motivação.
Um dia. Por acaso. Fui assistir a uma palestra de Ben Abraham, um judeu que sobreviveu aos campos de concentração e estava recebendo uma medalha de honra ao mérito da USP. Lembro que entre os horríveis relatos dos campos de concentração ele disse:
- Eu não era o mais forte, não era o mais saudável, nem o mais corajoso. Muita gente mais forte e mais saudável que eu morreu nos campos de concentração. O que me fez sobreviver não foi força, saúde ou coragem. Sobrevivi porque eu tinha um motivo pra isso! Prometi a mim mesmo que sobreviveria pra contar ao mundo as atrocidades que estavam fazendo, para evitar que elas se repitam a quem quer que seja. (recomendo a leitura do livro "...e o mundo silenciou" de Ben Abraham).
Num nível menos dramático que este dos campos de concentração, encontramos várias histórias parecidas em hospitais. Dois casos me marcaram muito pelo antagonismo. Dona Ana e Márcio.

Dona Ana era uma senhora de mais ou menos 70 anos, ex-professora do ensino fundamental, viúva com filhos já criados, casados e que lhe deram netos. Ela foi internada com fratura do colo do fêmur e tinha antecedente de insuficiência cardíaca congestiva de grau leve. Foi submetida a uma cirurgia chamada artroplastia parcial do quadril, onde a cabeça do fêmur é retirada e substituída por uma prótese metálica.
Apesar de ser uma cirurgia de grande porte, é de recuperação rápida. Em 4 a 5 dias a pessoa já é capaz de caminhar com auxílio de muletas ou andador e já deixa o hospital.
Após a cirurgia tivemos oportunidade de fazer 2 sessões de fisioterapia com ela até sua alta hospitalar. Na última, dona Ana fez exercícios sentada, mas se recusou a andar. Disse que estava com dor, mas que em casa ela faria os exercícios orientados e andaria. Ela estava forte e bem orientada e contava com a ajuda de uma neta em casa. Não vimos problemas em liberá-la sem ter andado no hospital.
Nessa ocasião não havia notado nada de estranho em seu comportamento. Ela estava um pouco desanimada, mas como qualquer pessoa que tenha dor.
Em 2 semanas, dona Ana foi reinternada por infecção no local da incisão cirúrgica. Não era nada muito grave, apenas infecção de tecidos moles. Mas como infecções no osso são muito complicadas, os ortopedistas querem a todo custo evitar que ocorram e, para isso, internaram dona Ana para receber antibióticos.
Na primeira sessão após a reinternação tivemos dificuldade de convencê-la a realizar os exercícios e explicar-lhe a importãncia de fazê-los.
Na segunda sessão fui sozinho, sem meus alunos. Fui recebido com um -"Ih, lá vem ele! Hoje eu não vou fazer nada!".
- Mas D. Ana, a senhora precisa fazer. Se continuar na cama o dia inteiro vai ficar cada vez mais difícil levantar, vai começar a dar problema no pulmão, no coração...
- Não quero saber! Me deixa em paz!- e fechava os olhos para me ignorar.
Insisti ainda, mas ela começou a chorar e disse:
- Me deixa em paz, eu não quero fazer nada! Eu quero morrer! Já pedi pro dr. Martins me dar uma injeção letal!
D. Ana, naquele momento, tinha boas condições clínicas e, se voltasse às atividades, se começasse a andar, iria prevenir uma série de complicações e, em duas semanas, após o término da antibioticoterapia, voltaria para casa normalmente.
Mas este era justamente o problema. Dona Ana não queria voltar à sua vida normal. Ela não enxergava motivação para viver que fosse maior que o custo de continuar viva.
- Não quero voltar pra casa! Já vivi muito, não tem mais nada que eu queira fazer! Já disse que quero morrer!
A neta ajudava a convencê-la e ela fazia os exercícios, mas com tremenda má-vontade. Com o tempo d. Ana passou a ficar agressiva com a neta que insistia que ela se motivasse a agir.
Tentei conversar sobre assuntos que a interessassem, descobrir algo que pudesse motivá-la. Falar sobre os netos geralmente é um bom apelo.
- Não, meus netos não precisam de mim! Já criei meus filhos, já vivi tudo que eu queria viver, agora quero morrer! Não tenho mais porque continuar viva.
Fora essa falta de vontade de viver, ela estava bem orientada, cognição preservada. Dona Ana tinha sido avaliada por psiquiatras, que optaram por não dar antidepressivos.
O tempo todo acamada, as complicações logo começaram a surgir. Piora da insuficiência cardíaca, problemas hepáticos, distúrbios eletrolíticos, fraqueza...
Ela me via chegar para a terapia e fechava os olhos, fingia estar dormindo. Os alunos não gostavam de atendê-la. Ela nunca colaborava, pelo contrário, fazia tudo pra atrapalhar. Tanto que passamos a usar isso como terapia. Se queríamos que ela fizesse uma coisa era só pedir o contrário. Se quiséssemos trabalhar os músculos que dobram o braço, era só esticá-los, ela fazia força para dobrar.
Seu estado foi piorando. Pneumonia. Internação na unidade semi-intensiva. Voltou para a enfermaria e já não mantinha os olhos abertos. Porque não queria, não queria ver ninguém.
Mais ou menos 3 meses após a cirurgia ela conseguiu o que queria. Morreu.

Nosso corpo é o espelho de nosso comportamento. Se temos um comportamento atlético, nosso corpo se torna atlético, se nosso comportamento é de renúncia à vida, morremos. Dona Ana, tinha condições clínicas para continuar vivendo, mas abdicou disso e o corpo foi correspondendo. Foi um suicídio lento, o corpo que estava cheio de vida foi se desligando aos poucos.
Da forma como foi, me arrisco a dizer que foi uma decisão elaborada de forma consciente. Ela realmente não enxergou motivo pra viver e preferiu morrer.

domingo, 2 de novembro de 2008

Anjinho

Henrique é um ser iluminado que passou pela vida de alguns de nós e, de alguma forma, deixou sua marca. Ensinou-me muito simplesmente pelo seu jeitinho de ser.
Ricão, como eu o chamava, era um menino de 11 meses de idade, vivia no hospital desde que nasceu devido a uma malformação pulmonar que exigia constante aporte de oxigênio e uma grande quantidade de medicamentos diários.

Fui chamado a avaliá-lo devido a um atraso no desenvolvimento neuro-motor. Com 11 meses de idade, Henrique mal controlava a cabeça e não conseguia rolar na cama nem ficar sentado. Isto, por falta de estímulo adequado no ambiente hospitalar; porque o catéter de O2 ligado na rede, não tinha um comprimento que permitisse que se afastasse muito do berço; e porque o quadro pulmonar o fazia ficar cansado com pequenos esforços.

Ricão era um mulatinho, pequeno para a idade, cabelinho bem curtinho e enroladinho. Tinha sempre um catéter de O2 no nariz e um acesso venoso para as medicações. Não falava palavra alguma, pouco balbuciava, mas sorria linda e constantemente. Seus olhinhos, um pouco azulados pela baixa oxigenação, brilhavam sempre. Pelos olhos e pelo sorriso irradiava pureza, amor, paz e bondade.

Apaixonei-me por ele assim que o vi. Ricão era extremamente carinhoso e seu sorriso quando me via chegar para a terapia era contagiante. Alegrava meu dia. Às vezes, chegava preocupado com compromissos ou aborrecido com alguma coisa e via aquele menino tão sofrido a irradiar paz e alegria, não dava pra não ser contagiado. E essa paz de espírito e alegria lhe eram intrínsecos. Não o via chorar ou fechar a cara nem mesmo quando a enfermeira vinha pra lhe pegar alguma veia ou aplicar alguma injeção. Mesmo nessas horas sorria alegremente.

Passei a visitá-lo diariamente. Com a terapia, logo começou a rolar, sentar sozinho e a ficar em pé com apoio. Comecei a levá-lo à brinquedoteca da enfermaria pediátrica onde podia brincar com diversos brinquedos e interagir com outras crianças (mesmo que nesta idade brincar se resuma a pegar algum objeto e batê-lo na mesa ou atirá-lo longe).
Com a maior carga de atividades diárias, de pouca intensidade, mas grande frequência, sua condição aeróbia melhorou e Henrique pôde ficar alguns períodos do dia sem o catéter de O2 sem que isso lhe causasse fadiga ou falta de ar.

Adorava atender o Henrique, e mesmo nos dias em que isso não era possível, passava lá pra pelo menos falar um oi. Num destes dias, a mãe do Henrique estava presente e eu disse a ela que iria leva-lo pra mim. O que não foi bem recebido.

Os pais do Henrique estavam presentes sempre que possível. Às vezes iam juntos ao hospital, às vezes se revezavam. Mas tinham que trabalhar, cuidar da casa, se não me engano, tinham outro filho. Henrique estava no hospital desde que nascera e não tinha previsão de alta. A mãe sentia muita falta do filho, ressentia-se de não poder ter o filho sempre com ela. Ainda vem um estranho dizer que vai levar o menino...

Entendi perfeitamente a situação da mãe e passei a dar mais privacidade a eles, deixando para atender o Henrique preferencialmente quando a mãe não estava.

Com o tempo, a doença pulmonar passou a sobrecarregar o coração de Henrique e este começou a apresentar problemas também. Era começo de Janeiro e eu estava saindo de férias. Fui ver o Henrique e, pela primeira vez em quase um ano, o vi chorando. Chorou quando a enfermeira lhe deu uma injeção. Chorou sofridamente, estava cansado e já não conseguia ficar sem O2. Neste dia sua alegria não apareceu.

Na volta das férias, fui logo visitá-lo. Não o encontrei no quarto. Henrique já tinha cumprido sua missão na Terra e voltou a ser mais um anjinho no céu.

Gafe

Estava saindo da biblioteca da enfermaria do Hospital Universitário e parei junto à porta, pois do quarto em frente saia o Zé, auxiliar de enfermagem, conduzindo uma cadeira de rodas. Nela, uma pessoa de idade avançada, com feição calma, rosto sem rugas, pele alva e fina, cabelos brancos bem fininhos e lisos que chegavam à altura dos ombros.
Ao meu lado, um homem alto, de aparência distinta, provavelmente docente da universidade. Observava tudo com ar de quem tinha muito cuidado com a pessoa na cadeira de rodas.
Puxei conversa: - É sua mãe?
Respondeu seco: - Não, é meu pai!!
- Hã... é... desculpa... é... hã... veja bem... (silêncio constragedor)

Esperma de galinha



Essa eu não sei se é lenda ou se aconteceu mesmo. Da forma como ouvi, aconteceu com um amigo médico, aliás, um médico que frequenta todos os eventos sociais das turmas da fisioterapia da USP. Mais do que eu frequentei.
Jun, se por acaso vier a ler isso, corrija qualquer erro...

Pelo que ouvi, o Jun, durante o estágio no sexto ano da faculdade, estava atendendo um paciente que disse:
- Doutor, meu problema é que estou com "esperma de galinha".
- O quê?! Como assim?! Esperma de galinha?!!

Ao olhar o prontuário do paciente viu a anotação: "Esplenomegalia" (aumento de volume do baço).

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Quando chega a hora 2

Esta é curta. Não sei dos detalhes. Quem me contou foi um aluno (Pituzinho).
O cara morreu jovem por comer bife a rolê. Não viu o palito que segurava o bife enroladinho e comeu com palito e tudo. Não é que o palito perfurou o intestino e o paciente morreu de sepsis.

Quando chega a hora

Saí do quarto passando mal, fui ver como estava minha pressão, mas estava normal.

O clima no quarto estava pesado, atmosfera triste, fria, depressiva, senti minhas energias sendo sugadas naquele lugar.

Era o quarto em que estava internado Daniel, aluno de doutorado em história na USP, gostava de música eletrônica e trabalhava como DJ em casas noturnas em suas férias em Garopaba. Era casado com uma moça paraguaia e tinham tido um filho há 9 meses.

Daniel estava internado devido a um politrauma causado por acidente automobilístico. Havia fraturado o cotovelo E (esquerdo), fêmur E, ambos os pés, tinha uma luxação no púbis (ao contrário do que diz o conhecimento popular, luxação é uma lesão gravíssima) e lesão do plexo braquial D (direito). Sua mulher tinha fraturado apenas o nariz, sem grandes consequências. O filhinho, com 9 meses de idade, morreu no local do acidente.

Daniel, que dirigia o carro, estava arrasado! Além de perder o filho, estava em uma situação muito difícil. Seu cotovelo E, que havia sofrido fratura cominutiva (múltiplos fragmentos), havia sido operado, uma cirurgia complicada para tentar fixar a fratura com placa e parafusos, e estava engessado. Tinha tido lesão do plexo braquial D, ou seja, dos nervos que inervam os músculos do braço. Não conseguia, portanto, nem coçar o próprio nariz. Precisava que lhe dessem comida na boca, banho e tudo mais que fazemos sem nem pensar a respeito quando temos 2 braços funcionantes.

O fêmur E estava fraturado e por isso estava em tração esquelética até que se fizesse a cirurgia para fixar a fratura. Esta tração consiste em um fio de aço (fio de Kirshner) atravessando a perna de um lado a outro por dentro do osso e, a esse fio é afixado um peso que traciona o osso longitudinalmente (parecido com a imagem ao lado).

Os pés também haviam sofrido múltiplas fraturas e tinham pinos, parafusos e fios de Kirshner por todos os lados. Estes últimos atravessavam a pele e ficavam com pontas expostas. A luxação na bacia também o impedia de se sentar.

Longa foi a estadia de Daniel no hospital. Após algum tempo, sua coxa E já havia sido operada e estávamos trabalhando para, principalmente, recuperar os movimentos de seu cotovelo e joelho esquerdos e do seu membro superior direito. Alguns movimentos já eram possíveis no braço direito, mas nada que ele pudesse utilizar no seu dia-a-dia. O cotovelo esquerdo já se movia relativamente bem e ele quase conseguia levar a mão à boca. Também já conseguíamos colocá-lo sentado.

Foi quando numa transferência do leito para a cadeira de banho, Daniel bateu o cotovelo E na janela do quarto e a fratura que estava fixada com placa e parafusos, desviou-se (perdeu o alinhamento anatômico). Foi necessária nova cirurgia, mas desta vez a dificuldade para fixar os fragmentos foi tão grande que foi necessária uma fixação externa (vocês já devem ter visto pessoas com ferros atravessando a pele até o osso para fixar fraturas, algumas destas fixações externas são popularmente conhecidas como gaiolas). Sabíamos que este cotovelo E dificilmente voltaria a ter mobilidade normal.

Daniel tentava vencer a culpa pela morte do filho e achar alguma motivação para voltar a ter vida normal. Tentava se apegar aos estudos, mas era difícil. Tentávamos animá-lo, transmitir-lhe confiança e esperança.

Certa vez, estávamos em seu quarto eu, um aluno meu paraguaio, ele e sua esposa, paraguaia. Para tentar melhorar o clima perguntei se conheciam a piada do paraguaio. Como não conheciam contei.

"Alguém bate à porta e a mulher vai atender. Na porta, um homem lhe aponta a arma e diz:

- Soi Paraguaio, vim para matar-te.

- Para quê? - pergunta a mulher.

- PARAGUAIO!!"

Silêncio no quarto, tentaram sorrir para serem simpáticos, mas meu aluno logo disse: - Que merda de piada!! -Então, todos rimos.

Mas a situação de Daniel era melhor, não engraçada. Seu pé D, que tinha fraturas graves e que não tinha bom prognóstico funcional, isto é, mesmo consolidando as fraturas ele não funcionaria bem, ainda começou a apresentar graves problemas de circulação sanguínea e precisou ser amputado no nível da canela.

A amputação de um membro é um grande trauma para qualquer um, e é difícil de se aceitar mesmo quando o membro está literalmente "podre". Tentava argumentar com Daniel que ele andaria melhor com a prótese que com o seu próprio pé no estado em que estava. Mas, óbvio, era difícil pra ele.

Após algum tempo e muito sacrifício Daniel teve alta do hospital. Saiu em cadeira de rodas com o cotovelo E com pouquíssima amplitude de movimento e o braço D capaz de realizar apenas poucos movimentos com força reduzida.

Alguns meses mais tarde Daniel apareceu na enfermaria do hospital para nos fazer uma visita. Estava bem, chegou em cadeira de rodas, empurrado pela esposa. Ao me ver, parou a cadeira e se levantou. Usava uma prótese provisória no lugar do pé amputado. Deu alguns passos em minha direção e me deu um abraço. - Olha, estou andando!

- E os braços, como estão? - Perguntei.

- Estão melhores, já consigo comer sozinho...

- Lá no Hospital das Clínicas, onde estou fazendo a reabilitação para colocação da prótese na perna, contei a piada do paraguaio. Disseram que só você mesmo pra contar uma piada tão ruim. - disse rindo.

Daniel estava orgulhoso em mostrar seus progressos para quem acompanhou sua pior fase. Despediu-se, queria falar com as enfermeiras antes de ir embora.

Essa visita se deu numa quarta-feira. Na segunda-feira seguinte quando cheguei ao hospital a secretária da enfermaria me perguntou:

- Você viu o Daniel?

- Vi, você viu?! Está ótimo, chegou andando, me deu um abraço. Da forma como chegou aqui na época do acidente, quem diria...

- Não, o Daniel internou de novo no sábado à noite com dores no abdôme. Era um abdôme agudo obstrutivo. Morreu ontem na UTI!!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Nomes diferentes

Nos Hospitais por onde passei vi uma porção de nomes diferentes, alguns viraram lendas e não se sabe mesmo se aconteceram... Pena minha memória não ser boa pra nomes...

  1. Dizem que um médico no Hospital das Clínicas chegou à porta e gritou o nome do seu próximo paciente: - Sr. Waldisnei (leia-se Valdisnei). - Nada, ninguém respondia. O médico insistiu por um momento, até que vem um homem caminhando em sua direção e diz: - Doutor, acho que sou eu, mas meu nome é Walt Disney.
  2. Essa eu presenciei no ambulatório do Hospital Universitário da USP. O médico veio chamar sua próxima paciente:- Dona Pedra (isso mesmo, pedra). Depois de chamar algumas vezes vem uma mulher toda brava. - Doutor, meu nome é Pedra (leia-se Pêdra, mulher do Pedro).
  3. Uma amiga fisioterapeuta que atende na área de uro-gineco teve 2 pacientes com nomes bem apropriados para a área: Sr. Pintudinho e Dona Bucetina.
  4. Outros que atendi em enfermarias ou ambulatórios...
  • Sr. GeraRdo
  • Dona Segunda
  • Dona Assumpta (esta tinha onze nomes porque casou-se 5 vezes e foi acumulando sobrenomes dos ex-maridos)
  • MagaRli
  • Cristojesus (leia-se Cristo Jésus)
  • Alírio
  • Palmici
  • Nicandido

Acrescentarei à medida que for lembrando.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Além da ciência: aprendizado e crescimento pessoal na área da saúde

Muito se diz sobre o avanço da medicina. Com esse extraordinário e inegável avanço, hoje, curam-se doenças antes incuráveis, aliviam-se dores terríveis, mantém-se vivos pacientes antes condenados, partos complicados tornaram-se simples, bebês extremamente prematuros sobrevivem e se desenvolvem bem e cirurgias complexas são feitas rotineiramente.
Para que todo esse desenvolvimento fosse possível, foi e é necessário o uso de um rígido método científico. Método este, que faz um recorte de uma situação real, restringe-a ao máximo, controla suas variáveis e testa, principalmente através de métodos quantitativos, a validade de hipóteses.
O hospital é o ponto de partida, o meio e ponto final de grande parte das pesquisas na área da saúde. Perguntas a serem respondidas pelas pesquisas surgem nos hospitais. Muitas destas pesquisas são lá desenvolvidas, e seus resultados nele aplicados.
Mas em um local onde a ciência está tão presente, há muito, mas muito mesmo, o que se perguntar, observar, aprender e crescer sem utilizar dos rígidos métodos científicos. "A ciência é muito boa dentro de seus precisos limites. Quando transformada na única linguagem para se conhecer o mundo, entretanto, pode produzir dogmatismo, cegueira, e, eventualmente, emburrecimento." (Alves, 1999- Entre a ciência e a sapiência).
Além da ciência, o hospital é lugar repleto de sentimentos intensos. Lá, as pessoas sofrem, sentem dor, medo, esperança, raiva, angústia, solidão, alegria e alívio. Experimentam solidariedade, poder, impotência, nojo, luto, preguiça, ânimo, desânimo, ilusão, desilusão, enganos e desenganos. Sonham, choram, riem, brincam, brigam, ficam doentes, se recuperam, morrem.
Com toda esta atmosfera de sentimentos intensos acontecendo continuamente, há um fluxo de energia caótico. Enquanto uma criança chora por medo de injeção, a enfermeira está com pressa para aplicá-la, porque o setor está com número reduzido de funcionários e ela ainda tem muito o que fazer. Neste momento, um policial chega com um homem baleado que teme por sua vida em pleno auge. Pessoas há tempos na fila de atendimento, impacientes, sofrendo cada uma a sua dor, que é mais importante que a dor do outro. E nesse mesmo momento um paciente recebeu a notícia de que está com câncer, enquanto um bebê lindo acabou de nascer e traz com ele uma infinidade de possibilidades, de potencialidades, de sonhos e alegria para os pais. Há ainda, a comemoração de aniversário de uma funcionária na copa da enfermaria, ao lado do quarto onde estão internados um motociclista com múltiplas fraturas, um senhor que vai operar de hemorróidas e um outro senhor de 78 anos, mas que pensa ter 18 e estar na casa da mãe, no interior da Bahia.
E tem mais, a enfermeira que está atendendo este paciente, está apaixonada pelo médico, que está trabalhando após um plantão de 12 horas e sequer notou que ela existe.
E, olhando tudo isso, aliás, não só olhando, mas interagindo, participando, vivendo tudo isso, está um jovem fisioterapeuta que nunca sonhou estar ali, mas que o destino lhe dá, por alguma razão, esta oportunidade de crescimento.
Acredito que nada é por acaso. O que passamos na vida tem alguma finalidade de enriquecimento e crescimento. Alguns precisam sofrer para isso. Felizes os que podem aprender apenas observando o sofrimento de outros.
Criei este blog porque me vi vivenciando experiências incríveis, enquanto pessoas muito próximas de mim, as vezes não faziam idéia de tamanha riqueza.
Quero compartilhar com todos, histórias que vi, vivi ou ouvi nesta ainda curta jornada na área da saúde. Encorajo, a quem desejar, que complemente este blog compartilhando suas histórias.